terça-feira, 6 de março de 2012

A invenção de Hugo Cabret


O filme A invenção de Hugo Cabret  é uma adaptação do livro infanto-juvenil com o mesmo nome escrito por Brian Selznick, escritor e ilustrador norte-americano e  publicado em 2008. Livro e filme são belas homenagens à história do cinema.

Tanto no livro quanto no filme o ponto alto são as imagens, no caso do livro, desenhadas pelo próprio autor e no fime contando com a tecnologia do 3D, que faz toda a diferença, além  da sensibilidade e subjetividade de Martin Scorsese, o diretor.

A história se passa na Paris da década de 30, apesar da opção, no filme, pela língua inglesa,  da qual Hollywood e sua indústria cinematográfica obviamente agradecem, pois apesar de uma homenagem aos franceses percursores do cinema há este deslize da língua.  


Grande parte das sequências acontecem numa estação de trem, remetendo-nos aos irmãos Lumièrie e à primeira exibição de um filme  - o equivalente a alguns segundos de um trem em movimento - o que deixou vários espectadores apavorados à época, pois pensavam que seriam atropelados pelo trem da tela.

As metáforas acerca da máquina, da engrenagem aparecem o tempo todo, desde a imagem da cidade de Paris e suas largas ruas, até a chegada de um trem na estação, passando pelos brinquedos à corda, os relógios dos quais  o menino Hugo Cabret mantem tão bem, a perna mecânica do chefe da estação, os projetores do cinema até chegarmos ao autômato, que é uma personagem importante na condução da narrativa. 

Scorsese usa o tempo todo da metalinguagem, ou seja, o cinema sendo usado para explicar e homenagear o próprio cinema e um dos nomes mais importantes deste: George Mièles - grande nome da história do cinema, diretor, ator e roteiristas de mais de 500 filmes, considerado o mágico da sétima arte, morreu sem reconhecimento e o filme, tanto quanto o livro, dão um final feliz e merecido ao artista, um reconhecimento tardio, porém cheio de emoção. 


Destaco ainda a performance dos atores mirins: Asa Butterfield (Hugo) e Chloe Moretz (Isabella): densos e ingênuos na medida certa, além disso suas personagens estão naquela fase, tais como O Palhaço de Selton Mello, tentando descobrir qual a função deles no mundo, os dois  fazem essas descobertas de maneira emocionante, lúdica e doce, mas com certo suspense e tensão.

Vale a pena ver o filme, pois além de tudo ele é a prova de que a tecnologia pode funcionar a serviço da emoção. 


domingo, 26 de fevereiro de 2012

Um pouco sobre o desencanto (de Bartleby?)

DESENCANTO

o desencanto
tem olhos liquefeitos
e mãos de unhas longas
tem gosto
e não tem pressa
já se assenta
com as botas sujas e pesadas
na sala de jantar
e nem se acanha
de não tirar o gorro da cabeça
quase não fala
e toma a sopa toda
que está por sobre a mesa
depois se guarda inteiro
e espera calmamente
que o fogo na cozinha
se apague lentamente
então se vai
sem preconceito e sem jeito
deixando à madrugada
que se esfria e esperta
a porta aberta
e a alma torta


Laene Teixeira Mucci

Ata da reunião de fevereiro de 2012


O livro escolhido para o mês de fevereiro foi Bartleby, o escriturário  de Herman Melville, autor do clássico Moby Dick. Segundo Fernando Sabino: "Por trás do véu da teimosia do funcionário, esconde-se um mistério kafkiano que desafiará o leitor até o fim dessa novela."
Estiveram presentes na reunião que ocorreu em minha casa: Raphael, Marcelo e Marcos. Todos concordamos que Melville consegue, em sua história, ser impactante ao tratar de um assunto cotidiano e universal, e, ao mesmo tempo, nos leva a pensar sobre essa "robotização" do cotidiano.
Nosso próximo encontro será dia 01 de abril às 18 horas na casa do Raphael, nesse encontro discutiremos o artigo A trajetória do negro na literatura brasileira - de Domício Proença Filho.


sábado, 25 de fevereiro de 2012

Modernismo e Raça Negra

O flautista, Portinari














Marcos Vinícius Ferreira de Godoy

A literatura e a pintura, desde o século XVIII, retratam o negro como incontestável integrante da história brasileira. O negro figura como personagem na literatura desde o Romantismo de Castro Alves em seu “Navio Negreiro”, bem como aparece nas gravuras de Debret do início do século XIX, durante o contexto da Missão Francesa contratada por Dom João VI. O modo pelo qual as artes literária e pictórica retratam o negro se mostra particularmente especial no advento do Modernismo, no início do século XX. No contexto da realidade social brasileira no início do século XX, o negro não havia logrado rechaçar, como ainda não o fez, as desigualdades sociais engendradas pela sua condição prévia de cativo, recém-liberto a partir da assinatura da Lei Áurea em 1889. Da confluência dessas observações pode-se afirmar que o movimento modernista dos anos de 1920, além de ter contribuído para maior distanciamento entre a realidade social e a arte no período, não foi capaz de sequer mitigar as barreiras do preconceito racial no Brasil.

Verifica-se, no conjunto das obras do período, a caricaturização do negro, atitude essa discrepante das intenções de criação de uma identidade esteticamente genuína da realidade brasileira, conforme propalado no Manifesto Antropofágico de 1928. Macunaíma, o herói sem caráter de Mário de Andrade, primeiro negro na formação étnico-cultural do Brasil, é um tipo preguiçoso, consequência da escassez de água limpa para purificação de sua raça. Pode-se dizer que muito pouco da condição social do negro havia mudado desde a edição da lei de abolição da escravatura, havendo críticos que afirmam a ocorrência de depreciação das condições gerais de vida em função do abandono disseminado da população negra e sua substituição pela mão de obra imigrante. Em decorrência desses dois fatores, a caricaturização do negro pelos modernistas e sua estagnação social, outro aspecto, cuja ênfase se assenta na desconexão entre realidade social e produção artística modernista, surge com expressivo vigor.

O Modernismo, cuja origem foi em São Paulo, representa a associação de uma seleta elite intelectual abastada e branca, patrocinada pela economia em desenvolvimento do café. Para que a realidade social do negro fosse devidamente retratada pela arte de seu tempo necessário seria que aqueles artistas tivessem algum grau de identificação com o tema a ser representado. Não foi o que ocorreu. Partiram de uma idealização equivocada da realidade fundamentada em valores não compartilhados por classes sociais muito distantes entre si. Os modernistas retomaram a exaltação da cor local romântica, presente na supervalorização do ameríndio na prosa de José de Alencar, com o mesmo viés idealizante e desconexo da realidade vivida pelo destinatário dessa idealização.

As intenções aventadas pelo Modernismo em seu manifesto restaram frustradas quando, na tentativa de criação de uma arte genuinamente brasileira, as formas estrangeiras vieram a ser reproduzidas com a adição de elementos da cultura doméstica. O Modernismo poderia ser desse modo caracterizado antes como uma arte de transição, sem engajamento social ou sem compromisso com a realidade social. Não se debruçou, por sua vez, sobre as condições de posicionamento do negro na realidade social brasileira.

Preferiu-se, a despeito dos postulados de criação da brasilidade estética, a reprodução de antigas fórmulas artísticas com a inclusão de novos elementos, alçando o negro à categoria de objeto de arte, desconectado de sua relevância para a composição do tecido social brasileiro. Possivelmente, o distanciamento entre a arte e a realidade social perpetrado por meio do Modernismo contribuiu para a camuflagem do preconceito racial no Brasil, ao caricaturizar o negro como figura arquetípica, ao invés de apresenta-lo como um agente relevante na história do país.

Diante da inaptidão do movimento modernista em retratar, fielmente, o negro no espectro social brasileiro, resta a constatação de que a conexão entre arte e realidade perfaz ideal de difícil alcance. Necessário se faz que a produção artística se comprometa a obter um maior grau de engajamento com as realidades múltiplas que a rodeiam, permeável a suas tribulações e idiossincrasias. Sem essa perspectiva, a arte rende-se tão somente aos caprichos da forma, atividade-meio sem colimação de fins mais legítimos e auspiciosos.


Mestiço, Portinari