“O pagador de promessas”,
de Dias Gomes
A história
acontece no interior da Bahia, a partir de uma promessa de Zé, que pede à Santa
Bárbara a cura para seu burro, ferido por um galho de árvore. Como na cidade
não havia uma igreja dedicada à santa, a promessa foi feita em um terreiro de
candomblé, onde a santa tem o nome de Iansã.
Zé do
Burro, portando então uma cruz nos ombros, e sua mulher, Rosa, caminham do sertão
baiano até Salvador para pagar a promessa. Como chegam lá, de madrugada, têm
que esperar o amanhecer nas escadarias da igreja dedicada à santa. Quando o padre
chega, Zé do Burro lhe conta que a promessa fora feita num terreiro de
candomblé a Iansã, o que leva o padre a impedir que Zé entre na igreja.
Obstinado, ele insiste em permanecer, ignorando os apelos da mulher para
partirem, até que se torna assunto na cidade e acaba sendo o alvo de um
repórter sensacionalista, que, por sua vez, distorce os fatos e o retrata como
um messias que apoia a reforma agrária.
Após
muita insistência, o padre tenta persuadi-lo a refazer a promessa para que
possa entrar na igreja, mas, desacatando as considerações do eclesiástico, Zé
se enfurece e termina autuado pela polícia. Recusa-se a ser detido e tenta
desesperadamente entrar na igreja com a cruz para cumprir sua promessa...
A
história, também entremeada com a sedução da mulher de Zé do Burro pelo sedutor
Bonitão, tem um final que em parte não se cumpre como o próprio personagem
central esperava, cabendo, assim, a boa leitura que a obra sugere para que se
possa conhecer como termina a promessa de Zé do Burro.
Vale
destacar, ainda, que, sendo o dramaturgo brasileiro mais traduzido no exterior,
Dias Gomes traz em, O Pagador de Promessas, mais do que a fé de um homem
simples, os conflitos entre o Brasil rural e o urbano, muito evidente na onda
de modernização que atravessava o país ao longo das décadas de 50 e 60, além do
embate em torno das crenças de um povo, cujo sincretismo religioso se choca com
o dogmatismo, o ritualismo rigoroso e a burocratização da igreja.
Por Paulo Tostes

