quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Infernos literários 

Inferno, inferno
Doce inferno
Inferno-inverno siberiano
Inferno-verão africano
Num quarto infernal, se reúnem K., Ródia e Meursault
Condenados, culpados, redimidos - mesmo que por nós, leitores
Um se envergonha - afinal foi dito que ela permaneceria após sua morte
Outro se encontra (será?)
Outro se mantém existencialmente indiferente
Inferno-estranhamento
Inferno-incômodo
Inferno-humano
Super-Homens não vão para o inferno, Ródia!
O inferno são os outros, dizem
Mas é também um pouco de mim
(Dizem K., Ródia, Meursault e eu).

Wallace Andrioli

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Popularização do Teatro (Juiz de Fora)

Durante o debate sobre teatro no projeto "Dois pra lá, Dois pra cá", da Tribuna, o superintendente da Funalfa, Toninho Dutra, destacou certa função da Campanha de Popularização do Teatro e da Dança: provocar diálogos entre os artistas locais. Em seu 11ª ano, o evento pretende valorizar tal perfil, retomando a presença da dança e de performances de abertura. "Há tempos os bailarinos não participavam. Queremos unir e fortalecer a classe", comenta Cristiano Fernandes, presidente da Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Juiz de Fora (Apac/JF), que coordena a campanha na cidade. Para o lema da nova diretoria (composta ainda por Anderson Ferigate, Mário Marques, Fabrício Sereno e Valdir Alves), foi escolhida uma frase de Jerzy Grotowski: "a essência do teatro é o encontro". A edição 2012 acontece de 12 de janeiro a 12 de fevereiro, mas os ingressos serão vendidos a partir do dia 6.
Além do espetáculo "Retalhos", do Estúdio de Danças Silvana Marques, 37 montagens teatrais de variados gêneros completam a grade de programação. Desta vez, o teatro de rua será representado por dois grupos. Na noite de estreia - dia 12, às 19h, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM) -, estarão no palco a Ekilíbrio Companhia de Dança e a própria Silvana Marques. "Ainda estamos fechando com outros nomes", avisa Cristiano. Em paralelo, será inaugurada a exposição "Darsilar", do artista plástico Yuri Mendes. Para o encerramento, dia 13, também estão previstas apresentações e uma avaliação. Segundo o presidente, a expectativa da Apac é reunir um total de 15 mil pessoas nos diversos espaços de encenação: CCBM, Casa de Cultura, Teatro Pró-Música, Estação Cultural, Mezcla, Instituto Federal do Sudeste de Minas Gerais e Teatro do Sesc.

Ponto e preço
Outra novidade é a mudança de ponto do trailer da Apac. Nesta edição, ele volta a se fixar no Calçadão da Halfeld, após diversos anos no Parque Halfeld. De acordo com Cristiano, aliás, a ideia é disponibilizá-lo nos outros meses para os grupos, a fim de criar um ponto de venda de ingressos do teatro local.
Em 2009, houve um aumento no valor das entradas de R$ 5 para R$ 7. O resultado acabou não sendo positivo. Três anos depois, a diretoria decide apostar em nova alteração: R$ 6. "Já conseguimos recuperar o público e nos firmar. Além disso, o novo preço continua sendo bastante acessível", assegura o presidente, salientando que, nas temporadas comuns, as trupes cobram, em média, R$ 10 a meia entrada.

Bazar teatral
Com apoio da Funalfa, um bazar de adereços, figurinos e cenários será realizado em paralelo, além de um seminário sobre as artes cênicas juiz-foranas. Segundo Cristiano, a questão da formação está nos planos da Apac para 2012. "Queremos promover cursos, oficinas e pleitear espaço em leis de incentivo." Para a ampliação de público, a Apac pretende firmar parceiras com a Funalfa e a Secretaria de Educação. Um dos projetos se refere à criação de um festival infantil em julho.

Fonte: RAMOS, Raphael. Popularização do Teatro tem Novidades em 2012. Disponível em [http://www.tribunademinas.com.br/cultura/popularizac-o-do-teatro-tem-novidades-para-2012-1.1008697]. Acesso: 28 de dezembro de 2011.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O PROCESSO




E agora Joseph K.?
O processo acabou
A vida acabou
Acabou o sentido (Existe algum sentido?)
Você corre pra onde? (Você corre?)
Você tem culpa de quê?
Você tem medo de quê?

A catedral onde ecoa seu nome
O quarto simples e abafado
as meninas e seus olhos pelas frestas
Tudo é sonho
Tudo é não-razão
E existe razão nesse tudo?

E agora Joseph K.?
Como se desvencilhar da acusação?
Qual é a acusação?
De onde vem a acusação?

Você é que não se aceita
Não sabe quem é
Não sabe o que é


A você cabe inventar um sentido
Lutar por esse sentido
Morrer por esse sentido
Procurar verdades em meio a incertezas
E viver essas mesmas verdades sem certeza alguma

A família o abandonou
O banco o abandonou
Você se abandonou?

Danem-se os recursos
Danem-se os tribunais
Vivas! às possibilidades
O processo está sempre em curso
Cabe a você, Joseph K., decidir
Absolvição completa ou dilação indefinida?
Porque entregar-se, jamais!


Marcos Godoy







sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Subjetividades femininas


            As mulheres são indefiníveis, indecifráveis e surpreendentes, nossos finais felizes nem sempre preveem príncipes encantados ou castelos, mas a gente quer ser feliz, como não existe fórmula para isso, vamos tentando à nossa maneira, nem sempre o final é tão feliz assim, mas é sempre a nossa cara, do nosso jeito: surpreendente. Afinal de contas, acreditamos que gotas de felicidade valem mais que o final feliz da última página do livro.
 Traçar o perfil feminino é quase impossível, porque mulher diferente de carro, de videogame ou de computador, não vem com manual de instrução padronizado, cada uma tem o seu e vai sendo construído ao longo da vida, muitas vezes reescrito, nós somos um grande rascunho do que desejamos ser. Vejamos algumas:

1) Independente, bom emprego, atleta, idade da loba, bem resolvida, um dia perdeu o marido, saiu para comprar cigarros e não voltou. Bem feito para ele, ela ganhou mais tempo para sua ginástica e para os amigos. Está sozinha? Não, a solidão aparecia quando vivia acompanhada com o comprador de cigarros fujão.
2) Todo poderosa, mandava, desmandava, fazia e acontecia, cheia de poder, controlava tudo, só esqueceu de controlar a própria vida, um dia perdeu o poder, sumiu, desapareceu, ninguém mais viu, mas todo mundo gostou, tem gente que parte e não deixa saudades.
3) Jovem, conheceu o marido pela internet, mudou de cidade, de emprego, de estado civil, mudou de emprego novamente, uma duas, três vezes, só não quer mudar de marido, pois as mudanças começaram por causa dele.
4) Fez 30 anos entrou em crise, a crise passou, ficou mais bonita, mais sensual, demorou  perceber que não estava envelhecendo, estava tornando-se mulher no sentido lato da palavra, mais dona de si. Fez 33 e ameaçou outra crise, mas também passou. Quer fazer uma tatuagem, mas acha que é coisa de adolescente ou de mulher em crise, tem medo do que os outros vão pensar. Descobriu que viver também é amadurecer.
5) Casou-se aos 25, aos 30 já tinha dois filhos, marido, sogra, papagaio, periquito, um cachorro de estimação do filho pequeno, sua vida seria quase perfeita, se não fosse a sogra que insiste em levar a sobremesa preferida do marido todos os domingos.
6) Boa aluna, engravidou aos 15, atrasou a entrada na faculdade. Está com 22 e vai levar o filho para vê-la colando grau. Pensa em casar, mas não sabe quando.
7) Apaixonou-se loucamente pelo amigo do primo do vizinho, vivia esperando ele ligar, até que um dia ele ligou, ela conversou dois minutos e percebeu que ele era superficial, ele continua ligando, mas ela parou de atender faz tempo, achou o vizinho mais interessante, e nem precisa gastar créditos do celular.
8) Ela queria namorar, arrumou um namorado meia boca: meio bobão, meio sem jeito, sem graça, faltava-lhe um quê. Desfilou com ele por aí, apresentou para as amigas, confessou que estava apaixonada, mas depois cansou. Agora ele fica andando atrás dela, e ela querendo um outro namorado, mas ele atrapalha. Um dia ele também se cansa dela, então, ela ficará novamente procurando alguém menos meia boca.  
9) Tem entre 40 e 45 anos, casou-se como as mocinhas de sua idade, de véu, grinalda, na igreja, teve filhos, alegrias, mas não aguenta mais olhar para a cara do marido, acredita que a única coisa boa que fizeram foram os filhos.
10) Sonhadora, guerreira, sonhava em poder trabalhar em sua área de formação, pois é apaixonada pelo que faz,  morar em sua casinha na roça, ficar bem com os pais e o namorado. Conseguiu! Agora já começa a fazer muitos outros planos e sonhar além do que tinha sonhado, porque mulher é assim, só as princesas das histórias se contentam com o príncipe e o castelo, a gente quer sempre mais. Muito mais!!!

A crônica acima foi escrita em homenagem às presonagens Marie e Sônia - dos livros O Estrangeiro e Crime e Castigo respectivamente.
                                                                        Carla Machado
                                                                           Dezembro de 2011.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

POESIAS



Canção da Tarde no Campo

Caminho do campo verde,
estrada depois de estrada.
Cerca de flores, palmeiras,
serra azul, água calada.

Eu ando sozinha
no meio do vale.
Mas a tarde é minha.

Meus pés vão pisando a terra
que é a imagem da minha vida:
tão vazia, mas tão bela,
tão certa, mas tão perdida!

Eu ando sozinha
por cima de pedras.
Mas a flor é minha.

Os meus passos no caminho
são como passos de lua:
vou chegando, vais fugindo,
minha alma é a sombra da tua.

Eu ando sozinha
por dentro de bosques.
Mas a fonte é minha.

De tanto olhar para longe,
não vejo o que passa perto.
Subo monte, desço monte,
meu peito é puro deserto.

Eu ando sozinha,
ao longo da noite.
Mas a estrela é minha.

(Cecília Meireles)



O Poeta

Tudo existe para os eleitos
Tenho constelações para me servirem
E gaivotas que levam minhas cartas
Mais depressa do que aviões
Nascem musas de minuto em minuto

Escovam o outro mundo para mim.

(Murilo Mendes)

Conto: Preciso Escrever, de Raphael Reis (inédito)

Preciso Escrever[1]

“Não chegar ao fim é o que faz a tua grandeza.” Goethe

O jovem casal passeava pela bela Igreja, fundada pela Ordem Terceira de São Francisco, que levava o nome do santo medieval. A Igreja barroca revelava um pouco do século XVIII e a decadência do ouro nas Minas Gerais, visto que seus altares não receberam o dourado, a não ser o altar principal.
Olhavam toda aquela quantidade de informações, admirados pela arte barroca e pela estátua do mestre Aleijadinho, principalmente a de São João Evangelista, avaliada em 2 milhões de reais.
Após dezenas de fotos, caminharam em direção ao passeio da Maria Fumaça. No museu da Estação Ferroviária, eles observaram os relógios e os telefones antigos, e lembraram-se dos “causos” dos avôs. Depois visitaram o Memorial Dom Lucas...
– Filha, não tem jeito. Não consigo escrever e nem dar continuidade... Por favor, me ajude! Lamentava o escritor Ítalo.
– O que aconteceu, pai?
– O editor da revista me ligou agora mesmo perguntando se o conto estava pronto e eu lhe disse que estava terminando, porém eu não consigo dar continuidade a nenhuma história. A publicação é para amanhã e eu tenho que entregar alguma coisa até hoje à noite.
– Chiii, pai, você está enrolado, hein?!
– Obrigado por me lembrar disso...
Enquanto Ítalo rascunhava algumas folhas que paravam diretamente na lixeira, sua filha Beatriz ficou pensando em alguma ideia que poderia ajudar o pai a construir um conto interessante.
– Este aqui, exatamente o que meu pai precisa. Pai, este livro é o que você mais gosta; o velho e bom Dom Quixote!
– E...
– Por que você não inventa um capítulo a mais e diz que este foi encontrado em uma biblioteca e que você é o único que tem essa informação? Pode ser um caminho...
Ítalo levantou-se da cadeira, deu um beijo na fronte da filha e exclamou que ela era um gênio. Logo, sentou-se de novo, passou a mão em uma das folhas e começou a escrever:
Até o momento se crê que a história de Dom Quixote é uma ficção e quem a escreveu foi Miguel de Cervantes. Na verdade, toda aquela história aconteceu e quem é o autor do livro é Sancho Pança, o próprio.
Explico-me: tudo foi artimanha do esperto Miguel de Cervantes, que foi o primeiro a ter contato com as aventuras e as publicou em dois volumes, um em 1605, e outro em 1615.
Após a morte real de Dom Quixote, o camponês Sancho Pança narrou as aventuras dos dois para Miguel de Cervantes que, muito habilmente e astuto como sempre, as escreveu em papel e fez as adaptações necessárias.
Posso afirmar ao que foi exposto empiricamente: encontrei uma carta escrita pelos punhos de Miguel de Cervantes em sua antiga casa em Alcalá, datada em 1616, na qual afirma minha versão, dias antes de falecer.
– Ridículo, ridículo! Não tem jeito, hoje estou sem inspiração. Não vai sair nada.
Ítalo amassou os rascunhos e mais uma vez os jogou fora. Sempre que necessitava de momentos de criatividade, dirigia-se para um gostoso banho de água quente; sempre vinham boas ideias. E foi isso que fez. Lembrou-se da história da Maria mata o boi e tira o couro, contada por sua avó, mas quando começaram a surgir os insights, ocorreu uma crise de consciência ambiental, que interrompeu o fluxo de ideias. Saiu do banho frustrado.
Ao cruzar pela sala, deparou-se com o filho que acabava de chegar da rua.
– Pai, a mana já me disse o que está acontecendo. Vai por mim, escreve um livro de auto-ajuda que pelo menos você vai ganhar dinheiro! Os filhos caíram na gargalhada.
– Bruno, nem preciso comentar... Bem, que o título eu já teria uns três, no mínimo: Vivendo com Sabedoria, Como ter Sucesso na Vida e, por último, o mais sensacional, Como ser Feliz e ficar Rico!
– Bem, acho que você está precisando de um, com o título: Fonte de inspiração para escrever contos, complementou a filha Beatriz aos risos.
Os três começaram a rir. Contudo, Ítalo não quis mais conversa com ninguém e saiu da sala, buscando o encontro consigo mesmo. Debruçou-se no parapeito da varanda e contemplou um passarinho flutuando pelo ar, até parar em uma das árvores que dava de frente para sua casa. Aquele simples passarinho, que muitos não dão importância, revelava a boniteza e a tranqüilidade, em contraponto à correria e impaciência do centro das cidade.
Pensou, pensou; pensou numa história que envolvesse um romance no contexto da Idade Média. O cenário seria um castelo e um romance proibido entre um cátaro e uma católica, porém logo descartou essa possibilidade que, em outras palavras, já fora escrita.
A noite chegou e, mais calmo, sentou-se em frente ao computador, no silêncio da casa, pois todos já estavam dormindo. Começou a escrever:
Naquela madrugada de inverno russo, Fiodoroevski foi acordado de súbito pelos soldados tsaristas. Foi condenado ao fuzilamento por grave crime de traição política à realeza. Levado a uma das praças que cerca seu bairro, foi preso a um dos postes, tendo como visão a neve. Neste instante fatídico, sentiu o gélido cano do revólver do soldado em sua nuca, o seu fim estava iminente. O arrepio da morte passou pelos seus pensamentos mais secretos: “como gostaria que um milagre acontecesse em minha vida e se Ele não me deixasse morrer”, disse para si mesmo Fiodoroevski, em tom de esperança.
Ali estava ele, ajoelhado e olhando para a neve, esperando a morte cronometrada, se não fosse o simples fato que mudaria toda a sua vida...
Com o avançar das horas, Ítalo adormeceu, e infelizmente não pude presenciar o final, mas o leitor astuto o saberá.


[1] Este conto foi publico no dia 19/12 no blog do Prazer da Leitura, inscrito no seguinte endereço: www.grupoprazerdaleitura.blogspot.com, por acasião do encerramento das atividades do grupo no ano de 2011.

domingo, 18 de dezembro de 2011

DIÁRIO DE MARIE CARDONA - Pauliane Godoy


 Argélia, 10 de junho de 1941.

            Há uma semana Meursault foi executado. Sinto-me perdida. Não consigo entender como ele pode deixar isso acontecer.
            Quando penso em quando o conheci percebo que sua liberdade foi algo que me despertou. Penso que ele era livre, pois não importava-se em ser “correto”. Esse termo é muito complexo, talvez a sua não convencionalidade fosse sua autonomia, e isso me surpreendia. No tempo em que trabalhei com ele no escritório pude sentir esse sentimento crescer e isso é maior do que eu possa definir.
            Meursault, de alguma forma, mostrava-se também interessado por mim, mas definir o que ele sentia sempre foi indefinível. Devo confessar que inúmeras vezes eu ficava triste com a forma como ele se comportava (creio que esse termo não possa ser adequado a ele).
            Às vezes era muito estranho achar que ele estava comigo só porque eu era sua amante. Será que eu era apenas um objeto de seu desejo? Eu queria ser mais; eu queria estar ao seu lado como sua esposa.
            Depois que a sua mãe morreu essa vontade cresceu, pois eu achava que ele gostaria de ter uma companheira. Eu achava que seria muito estranho mencionar esse assunto depois do ocorrido, já que sua perda havia sido recente. Apesar de nunca ter conhecido a mãe dele, para mim a perda de alguém tão próximo abalaria qualquer um. Mais uma vez Meursault me surpreendeu. Não demonstrou sofrimento algum, pelo menos da forma que eu esperava. Apesar de achar seu “não sofrimento” estranho, como tratava-se do Meursault, eu pensava que ele não gostaria de demonstrar seus sentimentos.
            Eu tentava entendê-lo. No seu julgamento levaram em consideração o fato dele não ter demonstrado sentimentos (que seriam esperados por todos) no velório de sua mãe. Meursault não se defendeu. Por quê? Como ele pode ficar tão passivo diante de tais questionamentos? Como podemos julgar a forma como alguém demonstra ou não os seus sentimentos?
            Talvez fosse de sua natureza. Às vezes seu comportamento aparentemente aquém me incomodava, como no dia em que seu chefe o ofereceu uma promoção em seu emprego e ele disse: “tanto faz”. Além disso, quando eu o perguntei se gostaria de casar comigo ele disse que sim. Fiquei muito feliz, pois para mim aquilo era o sinal de que eu era importante para ele. Quando o perguntei se me amava ele disse que não. Fui mais longe e o questionei como poderia casar-se comigo se não me amava e ele afirmou: “tanto faz”. Como assim “tanto faz”? Naquele dia eu morri um pouco. Na realidade, a minha relação com o Meursault era um morrer e nascer a cada dia. Mas mesmo assim eu o amava. Mas eu não pude me casar com ele.
            Eu nunca gostei do Raymond. A forma como ele tratava as mulheres me incomodava e eu não gostava da relação do Meursault como ele. Parecia que eu presentia o que aconteceria naquele dia na praia; o dia em que Meursault matou o árabe e abriu a porta do seu inferno.
Eu acredito que realmente o calor o desorientou, mas ninguém mais acreditava e o que eu poderia fazer para ajudá-lo?
            Na prisão ele mantinha uma postura apática diante da situação. Ele não lutou por sua vida. Mesmo diante do meu sofrimento ele não parecia importar-se comigo. Parecia que não sentia minha falta. Será que ele tentava me proteger? A cada vez que o via no tribunal sofria por sua ausência ao meu lado.
            Creio que ainda é cedo para que essa dor cesse. A dor da ausência ainda é muito recente. Confesso que nunca o entendi verdadeiramente. Talvez ele mesmo não se entendesse e sentia-se um estrangeiro nesse mundo. Mesmo diante dos últimos acontecimentos eu continuo o amando e o admirando, pois penso que na verdade ele nunca foi respeitado por não se conectar ao mundo.

Pauliane Godoy - 17 de Dezembro de 2011     

CONFRATERNIZAÇÃO 2011

O grupo reuniu-se no dia 17 de dezembro às 19:30 no Donuts para realizar sua confraternização.
Nesse encontro estiveram presentes os membros: Carla, Marcelo, Marcos, Pauliane, Raphael e Wallace.
Nessa oportunidade realizamos o "Livro Oculto"e escolhemos as obras para janeiro (O quinze - Rachel de Queiroz), julho (Mrs. Dalloway - Virígina Wolf) e dezembro (Cem anos de solidão - Gabriel García Marquez). Além disso, fizemos um balanço da nossa participação individual e da dinâmica do grupo para 2012.
Oportunamente os membros apresentaram suas produções referentes às obras que lemos durante o ano.
Em nome do grupo, desejamos às pessoas que nos acompanham Boas Festas!

Cada membro do grupo postará sua contribuição literária brevemente. Aguardem!









quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Lançamento da Revista da Procuradoria-Geral do Município de Juiz de Fora


É com imensa honra e prazer que convido a todos para o lançamento da primeira revista da Procuradoria-Geral do Município de Juiz de Fora, da qual consta o artigo vencedor da categoria profissional do concurso de monografias da mesma instituição, entitulado "Função social da propriedade à luz da Constituição Federal e do Direito Municipal", da autoria de Marcos Vinícius Ferreira de Godoy.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Lançamento dos livros de poesia, de Anelise Freitas e Larissa Andriolli

A Aquela Editora convida para o lançamento :

Vaca contemplativa em terreno baldio, de Anelise Freitas e No silêncio de um show de rock, de Larissa Andriolli.

O lançamento vai acontecer no dia 13 de dezembro, terça-feira, a partir das 19 horas, 
no Brauhaus (Rua Tavares Bastos, 49, São Mateus, JF - é bem fácil de chegar, mas tem um mapinha em anexo).

Os livros estarão à venda por um preço especial: apenas R$5,00 cada um.

NO SILÊNCIO DE UM SHOW DE ROCK
Larissa Andrioli


Tendo como norte temas e imagens de canções dos Beatles, Larissa Andrioli se lança em uma experiência poética que, mais que uma releitura, é também uma descoberta. Ao mesmo tempo em que revelam (ou inventam) outros sentidos nas letras das músicas, os poemas de No silêncio de um show de rock também se desdobram sobre uma visão de mundo muito particular, que brinca com a simplicidade lírica, sem deixar a elaboração da palavra em segundo plano.

24 páginas
ISBN: 978-85-65179-01-0
Preço: R$ 5,00 
Frete grátis


O que falaram desse livro:

“Há um dado interessante a considerar aqui: já foi dito que talvez a produção de textos hoje só seja possível como paródia. Dito de outra forma, há sempre um texto anterior sob aquele que se produz. Ora, este é um exercício que Larissa realiza admiravelmente bem. E este fato permite a ela uma certa impessoalização que afasta – camufla – qualquer confessionalismo. O texto é consciente de que é texto e extrai disto seu sabor especial. E nos leva a conhecer melhor alguns aspectos da realidade, em que às vezes esbarramos. Sem vê-los!”

VACA CONTEMPLATIVA EM TERRENO BALDIO
Anelise Freitas

Mais do que a subjetividade, talvez seja a intimidade o eixo principal da poesia de Anelise Freitas. Em sua etimologia, "íntimo" significa o que "atua no interior" e é justamente essa a natureza das principais imagens de Vaca contemplativa em terreno baldio. A irreverência do título denuncia o humor que perpassa muitos dos textos, mas deixa evidente também a perspectiva da observação que marca a obra, apoiada na vivência do amor, do sexo, da poesia e da contemplação da vida em todas as suas complexidades.


32 páginas
ISBN: 978-85-65179-00-3  
Preço: R$ 5,00 
Frete grátis


O que falaram desse livro:

“Este livro, caro leitor, começa quente e termina fervendo. Já em sua estreia, Anelise Freitas mostra a que veio, sem pudores, por completo. Desfiando versos molhados, de um lirismo que escorre pelo canto da página, a autora estabelece um pacto com o leitor, de proximidade visceral. Aqui, o sentimento, a vida e a poesia moram na carne, no relacionamento entre os corpos, que geram outros corpos, filhos.”

Lucas Viriato
Mais informações:

sábado, 10 de dezembro de 2011

É PRECISO IR ALÉM DOS EVENTOS

Em um projeto denominado "Dois pra lá, dois pra cá" levado adiante pelo "Caderno Dois" do Jornal Tribuna de Minas, discutiu-se na última segunda-feira, dia 05/12, no Afiteatro João Carriço, situado no prédio da Funalfa em Juiz de Fora, os principais desafios que enfrentam os poetas e escritores desta cidade em levar ao conhecimento da população seus trabalhos realizados. O evento contou com a presença de Carolina Barreto e Iacyr Anderson de Freitas, além dos escritores e professores universitários Anderson Pires e Fernando Fiorese.


Muitos foram os problemas discutidos, assim como os obstáculos a serem superados. Desde a tradicional dificuldade no processo de impressão e publicação das obras, passando pelo complicado processo de formação do leitor, chegando mesmo a importantes reflexões sobre as políticas públicas para a produção e difusão cultural em nossa cidade.


Entre as várias falas apresentadas, destacam-se aquelas que vislumbram um projeto de difusão cultural permanente, que vá além dos eventos e festivais realizados em nossa cidade e região próxima. Para Fernado Fiorese, professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora, é preciso que se crie políticas públicas permanentes, para esse processo de afirmação cultural, seja no campo da literatura, do teatro, do cinema e demais formas de expressão artística, não ficando elas reféns do "humor político" de nossas autoridades. A Lei Municipal Murilo Mendes de apoio à cultura é um importante passo neste sentido, muito embora apresente algumas falhas importantes, como uma variação considerável no montante das verbas anuais destinadas a este propósito, além de se limitar a um processo de simples impressão das obras, não estabelecendo nenhum diálogo ou convênio com outras instituições culturais ou editoras afins, no sentido de difundir aquilo que ela se propõe a financiar.


Sair de um círculo fechado de leitores é um desafio tão importante quanto os demais, neste processo de valorização e difusão da leitura, levando aos nossos jovens de lugares mais distantes aquilo que é produzido em nossa cidade. É preciso que se dê um acesso real e constante para os jovens de comunidades mais distantes sobre tudo aquilo que se produz no campo das artes, respeitando da mesma forma tudo aquilo que se produz em seus espaços. No campo da literatura, isso se faz com um árduo processo de formação de leitor, sobretudo nas escolas, mas que depende de políticas sérias, bem elaboradas e bem articuladas dos nosso gestores públicos.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Último ECO do ano

 
Acontece, na próxima quinta-feira (08/12) às 20 horas, no Espaço Mezcla, o último encontro do ECO- Performances poéticas. O evento que, geralmente, acontece na primeira quinta-feira de cada mês é uma  aposta de um grupo de poetas e escritores da cidade para trocar ideias, conhecer novos autores e mostrar para um público que varia entre 50 a 120 pessoas a produção literária local. 
O ECO sempre conta com dois blocos, no primeiro deles há apresentação dos poetas convidados pela organização, são sempre 3 a 4 poetas, tendo cada um entre 15 a 20 minutos para apresentarem seus textos e performances. No segundo bloco  é o momento do microfone aberto, em que os presentes podem se inscrever e apresentar poemas, preferencialmente autorais.
O ECO de dezembro é o momento dos retornos dos poetas mais pedidos, confraternizações e um balanço do ano.
Vale a pena conferir.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Projeto "Dois pra lá, dois pra cá" do Tribuna discutirá literatura local

Acontece amanhã (05-12), no anfiteatro João Carriço, debate sobre o cenário da literatura atual juizforana, que faz parte do projeto Dois pra lá, dois pra cá do Jornal Tribuna de Minas. Os debatores convidados são os escritores: Carolina Barreto e  Iacyr Anderson de Freitas, os escritores e professores universitários Anderson Pires e Fernando Fiorese.




A proposta do Caderno Dois do jornal é fazer um balanço das atividades literárias ocorridas na cidade, no último ano, além de incitar os escritores a discutirem:  "A distribuição das obras de autores juiz-foranos, as políticas de cultura e os novos suportes literários."

Mais informações, consulte: http://www.tribunademinas.com.br/cultura/a-proxima-pagina-1.996454.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Novo olhar para as obras Machadianas

Mestranda apresenta um novo olhar sobre as obras de Machado de Assis



Todos conhecem, leram ou pelo menos ouviram falar de alguma obra do escritor brasileiro Machado de Assis. Mas o que podem não saber é a importância e o pioneirismo dos trabalhos do autor. Muitos pesquisadores dedicam seus estudos a entender, descobrir e apresentar os diferenciais para a época nos textos de Machado.
É o caso de Raquel Peralva Martins de Oliveira, que desenvolveu sua dissertação do Mestrado em Estudos Literários do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) a partir das questões referentes à teoria e à crítica literária. Ela destaca que esta é umas das vertentes analisadas em seu trabalho. “Um dos objetivos principais foi verificar elementos e mecanismos que demonstrassem a postura inovadora de Machado, tendo em vista que muitas das narrativas ficcionais machadianas se oferecem como possibilidades de compreensão acerca das suas concepções teóricas e críticas.” A pesquisadora acrescenta ainda que “apesar da vasta obra machadiana há poucas publicações suas explicitamente dedicadas à crítica literária, como artigos, por exemplo”.
Segundo o orientador de Raquel, professor Gilvan Procópio Ribeiro, o trabalho fornece uma contribuição inovadora para os estudos literários. “Nessa pesquisa, os elementos são explorados sob perspectivas nunca antes analisadas.”
Tanto nas escolas quanto na academia, os debates acerca da obra literária de Machado giram, basicamente, em torno das características que possam defini-lo ou não como escritor Realista, vertente literária marcante no Brasil durante o século XIX, estas discussões serviram de subsídio para que Raquel defendesse o entrelaçamento entre o texto ficcional e o teórico. “Determinados posicionamentos teóricos e críticos de Machado permitem o aprofundamento do debate a respeito do frequente atributo de precursor de tendências.”
De acordo com Raquel, outro aspecto a ser destacado no trabalho refere-se à afinidade (antecipada) das explanações do autor com o conceito de escritura formulado por Roland Barthes no século XX. “O trabalho pode estimular novos pesquisadores a analisarem os textos ficcionais machadianos sob vieses diferentes, o que fortalece não somente os estudos em literatura, mas influenciam no entendimento da cultura da sociedade daquela época e os impactos que possam apresentar na atualidade.”


Outras informações: (32) 2102-3967 (Secretaria de Comunicação)




http://www.ufjf.br/secom/2011/12/01/mestranda-apresenta-um-novo-olhar-sobre-as-obras-de-machado-de-assis/

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Lançamento do livro: Colunas de São Pedro: a política papal na Idade Média Central, do Profº. Dr. Leandro Rust


Informamos o lançamento do livro “ 'Colunas de São Pedro': a política papal na Idade Média Central " (Annablume, 2011, 572p.), concluído no âmbito do Vivarium - Laboratório de Estudos da Antiguidade e do Medievo (UFMT), do Professor Dr. Leandro Rust.
Sinopse: 

"O tema primordial do livro consiste numa história institucional do papado entre os séculos XI e XIII. Assim estabelecida na sua aparente simplicidade, a obra em questão poderia parecer pretender remeter os seus leitores ao Oitocentos e à culminância dos discursos oficiais do poder. Ledo e absoluto engano! Seu autor restabelece uma “temática de outrora” em bases conceituais radicalmente outras. Desta perspectiva primordial inovadora decorre uma segunda e a meu juízo ainda maior contribuição, nesse caso à História Medieval, na medida em que restabelece de forma muito mais equilibrada e plena a abordagem de um dos temas mais caros aos especialistas do período em questão: Leandro Rust promove uma profunda revisão crítica do suposto “programa ou projeto reformador” levado a cabo pelo Papado durante a Idade Média Central, mais conhecido do público leitor pelo pomposo e vigoroso título de Reforma Gregoriana." (da Apresentação, por Mário Jorge da Motta Bastos)

domingo, 27 de novembro de 2011

Festival Primeiro Plano começa nesta segunda-feira, 28


Festival Primeiro Plano apresenta seis longas e mais de 50 curtas

Intitulado Olhar de novo, começa na segunda-feira (28 nov.) e vai até sábado (03 dez.), o Festival Primeiro Plano de cinema, de juiz de Fora.

O evento acontecerá no Alameda - rua Morais e Castro, Alto dos Passos, com sessões às 15, 17, 19 e 21 horas.

As mostras estão divididas em competitivas regionais e nacionais, além da primeira sessão diária que é a sessão escola, com o objetivo de formar novos espectadores para a sétima arte.

Este ano, foram selecionados 50 curtas e seis longas que estarão concorrendo aos prêmios do festival, além da exibição dos filmes, haverá oficinas e um intenso debate acerca do cinema.

Comemorando os 10 anos do Festival, acontecerá também uma votação do melhor dos melhores de todos os tempos, em que o público poderá votar e escolher o melhor curta entre os curtas vencedores das edições anteriores, realizadas entre 2002 e 2010. o curta eleito melhor dos melhores será exibido no último dia do festival em sessão comemorativa, em que os idealizadores receberão serão premiados.

Vale a pena conferir a programação que está no site do festival: http://www.primeiroplano.art.br/2011/

sábado, 26 de novembro de 2011

CRIME E CASTIGO NO CINEMA





Para aqueles que são amantes da sétima arte, associando-a ao prazer literário, encontra-se disponível na Livraria Cultura(http://www.livrariacultura.com.br/) o filme Crime e Castigo, do diretor Jarnold, JULIAN. com elenco da BBC a um preço de R$ 49,90.




"Fiel à obra de Dostoievsk, esta adaptação, situada na Petersburgo do século XIX, traz a história de Raskolnikov (John Simm), um inteligente e bem conceituado jovem estudante, que massacrado pelo mundo a sua volta, comete um assassinato para testar sua coragem e princípio."

terça-feira, 22 de novembro de 2011

3º Festival de Cenas Curtas JF

JUIZ DE FORA - 21/11/2011 - 16:48

3º Festival de Cenas Curtas de JF - Oito esquetes disputam R$ 10 mil em prêmios

Oito esquetes disputam a etapa final do 3º Festival de Cenas Curtas de Juiz de Fora, que acontece no próximo sábado, 26, às 19h, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM – Avenida Getúlio Vargas 200 – Centro), com entrada franca. As cenas foram selecionadas pelos jurados da competição em três eliminatórias – dias 5, 12 e 19 de novembro. As três melhores propostas receberão troféus e premiação em dinheiro, sendo: primeiro lugar – R$5 mil; segundo lugar – R$ 3 mil; terceiro lugar – R$ 1 mil. O júri poderá oferecer, ainda, o Prêmio Destaque, no valor de R$ 1 mil.

Cenas finalistas:

1. O espelho d’outro lado da rua
2. Saída de emergência
3. Como descascar cebolas sem chorar
4. Cartas de amor ao próximo
5. Teófilo - Um sonho de liberdade
6. Você é algo assim
7. Klaus e a chave tetra (foto)
8. Pandora e Panacéia

Na edição 2011, o Festival de Cenas Curtas de Juiz de Fora, promovido pela Prefeitura de Juiz de Fora/Funalfa sofreu alterações nas regras, aceitando somente textos e encenação inéditos, com o tempo mínimo de cinco minutos e máximo de 15 minutos. Direcionado a artistas, grupos e companhias de Juiz de Fora, amadores ou profissionais, a iniciativa tem como objetivos promover a atividade teatral no município, incrementar o intercâmbio entre grupos e artistas da cidade, destacar e divulgar novos talentos, valorizar as artes cênicas, estimular novas formas de dramaturgia, encenação e produção, além de impulsionar as manifestações culturais na cidade.

*Informações com a Assessoria de Comunicação da Funalfa, pelos telefones 3690-7044 / 7045.
FUNALFA

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Crime e Castigo: a obra do mês e do ano!

  

  
   Para comentar a obra do mês e do ano, nada melhor do que um dos melhores críticos literários, o norte-americano Harold Bloom, retirado de seu livro Como e Por que ler:

   Raskolnikov, estudante cheio de ressentimento, alimenta a fantasia de assassinar uma velha gananciosa, dona de uma casa de penhores que o explo
   No intricado enredo, Raskolnikov apaixona-se por Sônia, começa a perceber que Porfírio sabe que ele é culpado e, cada vez mais, constata no brilhante Svidrigailov o seu próprio potencial de degradação. O leitor depreende em Raskolnikov uma acentuada divisão, entre o ímpeto de arrependimento e a convicção de que o seu ser napoleônico necessita de plena expressão. O próprio Dostoiévski encontra-se, sutilmente, dividido, pois Raskolnikov só se entrega ao arrependimento no epílogo do romance.
      Dostoiévski acreditava em um cristianismo que ainda está por acontecer: um tempo em que nos amaríamos uns aos outros, altruisticamente, e nos sacrificaríamos uns pelos outros, como o faz Sônia, em 
   Dostoiévski, essencialmente, um autor trágico, e não um moralista épico, discordava de Tolstoi. Às vezes, reflito sobre a coincidência de Dostoiévski, aos vinte e três anos, ter deixado o exército, para seguir a carreira literária, e de Rodion Raskolnikov ter vinte e três anos, no verão terrível em que, gratuitamente, mata duas mulheres, de modo a engrandecer a visão napoleônica que ele tem do seu próprio ser. Existe uma afinidade tácita entre a recusa de Raskolnikov de se desviar de sua auto-avaliação e a busca heróica de Dostoiévski de escrever ficções eternas, culminando em
   Leitores abertos à obscuridade experimental de  Finais felizes não condizem com obras que retratam niilistas inveterados, como Svidrigailov. Quando penso em
   A meu ver, existe uma grande afinidade entre Raskolnikov e o assassino Macbeth, assim como no caso de Svidrigailov e Edmundo (em
cativante — Macbeth é vilão e herói, e não um comparsa de lago e Edmundo.
   Dostoiévski segue Shakespeare ao identificar a imaginação do leitor com Raskolnikov, assim como Macbeth arrebata-nos a imaginação. Porfírio, inspetor de polícia que, de modo brilhante, tortura Raskolnikov com a incerteza, apresenta-se como cristão, mas, nitidamente, desagrada Dostoiévski, para quem a nêmese de Raskolnikov é um “mecanicista” ocidentalizado, um manipulador da psique tão atormentada de Raskolnikov. Sônia encontra-se, espiritualmente, muito além de nós, leitores, no
tocante à dimensão transcendental; do mesmo modo, o incrível Svidrigailov excede-nos em seu demonismo. Não resta alternativa, senão seguirmos a consciência de Raskolnikov, assim como acompanhamos Macbeth em sua viagem às trevas. torna cúmplices dos assassinatos cometidos por seus heróis-viloes. segundo a qual a tragédia nos livra de emoções que não propiciam o bemestar social, Shakespeare e Dostoiévski têm intenções mais soturnas a nosso respeito.
A fantasmagoria torna-se realidade quando o jovem mata não apenas a anciã, mas também a meia-irmã demente da própria anciã. Depois que os crimes são cometidos, o destino de Raskolnikov é traçado nos encontros mantidos com os três personagens principais do romance. A primeira é Sônia, jovem pura e angelical que se entregara à prostituição como meio de prover aos irmãos indigentes. O outro é Porfírio Petrovich, esperto investigador de polícia, nêmese implacável de Raskolnikov. O terceiro é o mais fascinante dos três, Svidrigailov, monumento ao solipsismo niilista e à volúpia.continua sendo o melhor dos romances de suspense,  quase um século e meio após ter sido lançado. É preciso ler o romance — embora seja tão angustiante — porque, conforme ocorre com Shakespeare, trata-se de uma obra que altera a nossa consciência. Ainda que muitos de nós neguem o niilismo das grandes tragédias de sangue shakespearianas — Hamlet, Otelo, Rei Lear e Macbeth —, as mesmas constituem a origem inegável dos grandes niilistas de Dostoiévski: Svidrigailov; Stavrogin, em Os Possessos (Os Demônios); e o velho Karamazov, o pai em Os Irmãos Karamazov. Jamais saberemos qual era a verdadeira crença (ou descrença) de Shakespeare, ao passo que Dostoiévski se torna um reacionário do clericalismo, a um ponto quase inconcebível. Porém, especialmente no caso de Crime e Castigo, devemos seguir a máxima de D. H. Lawrence: confia no conto, não no contista.Crime e Castigo. Nesse tempo cristão, que estaria além da civilização conforme por nós é conhecida, seria possível escrever romances? Presumivelmente, deles não necessitaríamos. Tolstoi, que queria ver Dostoiévski como uma Harriet Beecher Stowe da Rússia, insistia em preferir A Cabana do Pai Tomás a Rei Lear.Os Irmãos Karamazov. O arrependimento de Raskolnikov é sincero, no Epílogo pouco convincente do romance, quando o personagem se rende à figura de Madalena, encarnada por Sônia, esperando uma ressurreição, da morte à salvação, conforme se dá com Lázaro. Mas como a recalcitrância trágica de Raskolnikov está, inextricavelmente, presa ao ímpeto heróico de Dostoiévski, no sentido de escrever grandes tragédias, o leitor não se convence muito dessa tardia humildade cristã da parte de Raskolnikov. Dostoiévski é mestre em introduções, perito em desenvolvimento da ação, mas, surpreendentemente, um tanto ou quanto fraco em conclusões considerando-se que seu temperamento apocalíptico (ao que se supõe) deveria torná-lo bem versado em questões finais.Crime e Castigo serão levados a refletir sobre a possibilidade de uma divisão não apenas em Raskolnikov mas no próprio Dostoiévski, e podem chegar à conclusão de que a recalcitrância do autor, de ordem dramática, e não moral-religiosa, faz com que ele relute em transformar Raskolnikov em um ser redimido.Crime e Castigo, de súbito, vem-me à mente Svidrigailov, e estremeço diante da explicação que ele oferece, no momento em que puxa o gatilho e se suicida, dizendo: “Para a América”. Temos aqui o pós-niilista (niilista apenas não basta) que afirma a Raskolnikov a existência da Eternidade; é como um banheiroimundo, em meio aos campos russos, infestado de aranhas. O pobre Raskolnikov, diante da terrível realidade encarnada pelo mais que derrotado Svidrigailov, pode ser perdoado por almejar uma visão mais confortadora, a despeito de nela acreditar ou não.Rei Lear), este último, outro sensualista frio. Nascido em 1821, Dostoiévski associa o perturbador Svidrigailov a Lord Byron, que se tornara imensamente popular na Rússia, pela ação de Pushkin, à época o “poeta nacional” (e que precedeu Dostoiévski e Turgenev na admiração por Shakespeare). A volúpia criminosa de Svidrigailov, instigada, especialmente, por meninas, é uma degradação das tendências de Edmundo e Byron. Mas Raskolnikov, apesar de tudo, está longe de se tornar um Svidrigailov, assim como o assassino — embora sempreNós talvez não assassinássemos velhotas ou monarcas bonachões; porém, como, até certo ponto, somos Raskolnikov e Macbeth, dependendo das circunstâncias, quem sabe, seríamos capazes de fazê-lo? Assim como Shakespeare, Dostoiévski nosMacbeth e Crime e Castigo são tragédias deveras assustadoras, que não nos purgam de qualquer sentimento de compaixão, quanto mais de terror. Revertendo a idéia aristotélica da catarse (que possui natureza sociológica e médica), Macbeth, que faz com que Crime e Castigo ultrapasse o ponto de nos deixar deprimidos, enquanto vivemos aquele inóspito verão em Petersburgo, no qual o pesadelo fantasmagórico se transforma em realidade. Todas as paredes parecem pintadas de um tom mórbido de amarelo, e o horror de uma metrópole moderna é retratado com uma intensidade que faz lembrar Baudelaire, ou Dickens, nos momentos menos afáveis. Chegamos a sentirCrime e Castigo — torna-se: o que leva Raskolnikov a se tornar um assassino? O personagem tem uma série de qualidades positivas; no fundo, seus impulsos são decentes, verdadeiramente, humanos. Espanta-me a noção do eminente romancista contemporâneo italiano Alberto Moravia, de que Raskolnikov seria um precursor dos comissários de Stalin, mais conhecidos como opressores de terceiros do que como indivíduos propensos à auto-recriminação.precede os crimes por ele cometidos. Duvido, porém, que ele encarne uma versão grosseira da vontade de sofrer constatada em Sônia. Tampouco é Raskolnikov um duplo, passivo, de Svidrigailov, cujo sadismo malévolo é um véu que encobre o “Para a América” — ou seja, o suicídio. É, praticamente, impossível separar Raskolnikov de Dostoiévski, que, aos vinte e oito anos, esteve oito meses encarcerado em cela solitária, por pertencer a um grupo político radical. Condenados à morte, Dostoiévski e companheiros chegaram a se ver diante de um pelotão de fuzilamento, recebendo a comutação da pena na última hora. Seguiram-se, então, quatro anos de trabalhos forçados na Sibéria, período em que Dostoiévski se tornou um reacionário consumado, além de monarquista, e devoto seguidor da Igreja Ortodoxa Russa.crimes, e o tribunal tê-lo considerado, pelo menos, em parte, mentalmente desequilibrado, especialmente nos momentos em que cometera os assassinatos. Não consigo ver como um leitor comum, de mente aberta, poderia definir, com um mínimo grau de certeza, a motivação das transgressões de Raskolnikov, no sentido corrente da palavra “motivação”. A perversidade, tão arraigada em Svidrigailov, lago e Edmundo, ocupa pouco espaço nas psiques de Raskolnikov e Macbeth, o que torna a queda desses personagens ainda mais aterrorizante. Tampouco adianta-nos procurar em Raskolnikov e Macbeth indícios do Pecado Original. Ambos sofrem de uma imaginação intensamente profética. Quando se vêem frente a uma ação que lhes oferece a possibilidade de ganho pessoal, atiram-se a ela, imaginam ter cometido os crimes, e sofrem da culpa decorrente. Quando a imaginação é assim tão intensa e a consciência tão culpada, o assassinato,Crime e Castigo não deixa de ser um tanto tendencioso, falha sempre presente em Dostoiévski, autor aguerrido, cuja perspectiva contundente fica sempre explícita em tudo aquilo que escreve. Seu propósito é soerguer-nos, como Lázaro, do nosso niilismo ou ceticismo, e converter-nos à Ortodoxia. Eminentes escritores, como Tchekhov e Nabokov, não o toleravam; para tais escritores, Dostoiévski não era um artista, mas um pseudoprofeta de voz estridente. Do meu ponto de vista, Crime e Castigo, a cada leitura, é uma provação, de uma intensidade terrível, e um tanto perniciosa, como se fosse um Macbet composto pelo próprio Macbeth. Raskolnikov nos magoa porque não conseguimos dele nos livrar. Sônia me parece bastante intolerável — nem mesmo Dostoiévski foi capaz de criar um santo que fosse racional. Sônia me faz estremecer. Mas é extraordinário que Dostoiévski nos tenha oferecido dois personagens coadjuvantes tão expressivos como Porfírio, o inspetor de polícia que se torna grande antagonista de Raskolnikov, e Svidrigailov, figura extremamente plausível, dotada de um charme infindo. Porfírio, experiente investigador, é uma espécie de pragmatista, um utilitário que acredita na possibilidade do bem maior, para a maioria, através do exercício da razão. Suponho que qualquer leitor, inclusive eu, haveria de preferir a companhia de Porfírio à do perigoso Svidrigailov para um jantar, mas acho que Dostoiévski preferiria Svidrigailov.
   É essa sublimidade terrível, comparável à de
que na Petersburgo de Raskolnikov, assim como na Escócia enfeitiçada de Macbeth, nós também talvez fôssemos capazes de cometer assassinatos.
   Subitamente, a questão — como ler
   Raskolnikov, assim como Svidrigailov, sua paródia demoníaca, é dado à autopuni-ção, e seu masoquismo é absolutamente incompatível com o desejo expresso de ser um Napoleao. Em certo sentido, Raskolnikov mata para descobrir se, na verdade, é um Napoleao em potencial, embora tudo o leve a crer que ele esteja muito longe disso. Talvez o sentimento mais profundo de Raskolnikov seja a culpa atroz, que
   Raskolnikov é recolhido à Sibéria durante sete anos, sentença leve para alguém que cometeu dois assassinatos; o atenuante é ele ter confessado os
em si, não passa de uma cópia, uma repetição, um ferimento que dilacera a
realidade, ainda que apenas para completar algo que, de certo modo, já foi feito.
   Por mais envolvente, o romance
  O senhor não pode passar sem nós.
— E se eu fugir? — perguntou Raskolnikov com um riso estranho.
— Não foge. Um mujique fugiria, um revolucionário vulgar fugi ria porque tem um credo para toda a vida. Mas o senhor já não crê na sua teoria: que levaria se fugisse? Ademais, que existência ignóbil e odiosa a de um fugitivo! Fugindo, voltaria por sua própria vontade.
  senhor não pode passar sem nós—, a vela falando àOsPossessos). Svidrigailov é personagem tão forte, e tão estranho, que chego quase a voltar atrás na minha afirmação quanto à tendenciosidade de Dostoiévski. Raskolnikov confronta Svidrigailov, que persegue Dunia Romanovitch, que está se enfurecendo; não há necessidade! Como o senhor sabe, tudo não passou de uma bolha de sabão. (Diabos me levem! como estou bebendo vinho!) Desde o começo lamentei que sua irmã não tenha tido o destino de nascer no século II ou III de nossa era, como filha de um príncipe reinante ou de algum governador ou procônsul na Ásia Menor; sem dúvida alguma seria uma daquelas que enfrentaram o martírio, teria sorrido quando lhe dilacerassem seus seios com tenazes em brasa, e por seus próprios pés teria enfrentado o martírio. E no século IV ou V, ter-se-ia refugiado nos desertos do Egito para lá ficar trinta anos, vivendo de raízes e de êxtases. Ela tem loucura por sofrer por quem quer que seja e não conseguindo é capaz de se atirar de uma janela.
   Temos aqui, merecidamente, um momento clássico da história do “romance policial”. O que poderia ser mais sutil do que as palavras de Porfírio — O
mariposa? Em momentos como esse, percebemos que o grande Tchekhov se equivocara; é perigoso subestimar Dostoiévski, mesmo quando a sua obra desagrada.
   Mais perigoso, e ainda mais memorável, é Svidrigailov, niilista autêntico, ponto final do que poderia ser chamada a avenida shakespeariana em Dostoiévski (juntamente com Stavrogin, em
Raskolnikov, irmã do protagonista. Eis Svidrigailov, discorrendo sobre a mulher que sempre o rejeitará:


Com toda a aversão natural de Avdotia Romanovna e a despeito de meu aspecto invariavelmente sujo e repulsivo — ela acabou tendo pena de mim, pena de uma alma perdida. Quando o coração de uma jovem sente compaixão, é mais perigoso do que qualquer outra coisa. Ela passa a querer “salvá-lo”, chamá-lo à razão e o levanta e encaminha a nobres objetivos recuperando-o para a vida nobre e útil — sim, todos nós sabemos até que ponto esses sonhos podem ir... Vi, imediatamente, que o passarinho estava pronto para cair no alçapão; eu também estava pronto. Percebo, Rodion
  Os Possessos, é absoluta, e, absolutamente, aterrorizante. Raskolnikov jamais se arrepende, embora no Epílogo ele se entregue à santidade de Sônia. Mas é Svidrigailov, não Raskolnikov, quem escapa da contundente ideologia de Dostoiévski, e quem, na verdade, escapa do livro. O leitor pode dizer com seus botões — “Svidrigailov vive” —, embora não saísse a pichar a frase nas paredes do metrô.
   Depois que fracassa a tentativa de Avdotia Romanovna (Dunia Raskolnikov) de matar Svidrigailov (algo que ele desejava, ainda mais ardentemente do que a ela), Svidrigailov parte “para a América” — suicidando-se. A liberdade de Svidrigailov, como a de Stavrogin, em




Obs.: indico a edição da Editora 34, com tradução do Professor Paulo Bezerra. É a única tradução diretamente do russo para o português - as demais são feitas do francês. É uma excelente edição!